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A Festa do Rosário de Pombal e a Memória de um Povo

A Festa do Rosário representa um momento de extrema relevância na memória dos pombalenses. Ao longo das gerações, tem reunido fé, tradição e manifestações da cultura popular. Sua história está profundamente ligada à participação da população negra na formação cultural da cidade.

Preliminarmente, é necessário destacar que, de acordo com a tradição da Igreja Católica, a padroeira oficial de Pombal é Nossa Senhora do Bom Sucesso. Essa devoção remete às origens da cidade, quando, em 1698, foi instalado o Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó, primeiro núcleo colonial do alto sertão paraibano.

Porém, foi Nossa Senhora do Rosário que conquistou, ao longo do tempo, uma extraordinária devoção popular. Sua festa é celebrada há gerações e ocupa lugar de destaque na vida religiosa e cultural de Pombal.

Historicamente, a devoção a Nossa Senhora do Rosário sempre esteve profundamente ligada à população negra. Durante o período da escravidão, homens e mulheres escravizados encontraram nessa devoção um importante espaço de fé, convivência e preservação de suas tradições. As Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos se espalharam por diferentes regiões do Brasil, funcionando também como espaços de solidariedade e organização comunitária.

Certa vez, em conversa com o saudoso padre Solon Dantas de França, perguntei por que a Igreja tinha como padroeira Nossa Senhora do Bom Sucesso, e não Nossa Senhora do Rosário, cuja festa mobiliza fiéis de Pombal e de outras regiões.

Padre Solon me explicou que Nossa Senhora do Bom Sucesso, Nossa Senhora do Rosário e tantas outras invocações se referem à mesma Maria, mãe de Jesus Cristo, escolhida para gerar o Filho de Deus. Maria é venerada pelos católicos por seu papel de mãe e exemplo de fé, enquanto a adoração é reservada exclusivamente a Deus.

A origem da nossa Festa do Rosário está ligada à formação religiosa, social e cultural de Pombal. Embora existam indícios de que a devoção e as celebrações possam ser anteriores, 1895 representa um marco documental para a organização oficial da festa. Naquele ano, foi criada a Irmandade do Rosário e, no primeiro domingo de outubro, realizou-se uma solenidade.

Após a inauguração da nova Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, em 1897, a antiga matriz passou a ser denominada Igreja de Nossa Senhora do Rosário, ficando sob a administração da Irmandade do Rosário e ocupando lugar central na celebração da festa.

Os Congos e os Negros dos Pontões já participavam da celebração registrada em 1895. A presença desses grupos demonstra a importância da população negra na formação e na continuidade da Festa do Rosário.

Ao longo das décadas, a celebração incorporou outras manifestações. O Reisado foi integrado à Festa do Rosário em 1959, passando a fazer parte do conjunto de expressões culturais que acompanham a festividade.

Congos, Pontões e Reisado possuem trajetórias próprias, mas encontraram na Festa do Rosário um espaço de continuidade e transmissão de seus saberes. As irmandades também desempenharam funções de solidariedade, organização comunitária, sociabilidade e preservação cultural.

O sincretismo religioso é bastante expressivo nas manifestações presentes na Festa do Rosário em várias regiões do país. Em suas comemorações, a população negra encontrou formas de resistência e resiliência, preservando costumes, símbolos e práticas dentro de uma sociedade marcada pela presença dominante do catolicismo.

Foi com o passar do tempo que a Festa incorporou música, dança, vestimentas, cortejos, apresentações dos grupos culturais, celebrações religiosas e encontros comunitários. Essas manifestações ajudaram a manter viva uma tradição que tem atravessado gerações.

Em 3 de abril de 2002, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e o Cruzeiro do seu adro foram tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba, por meio do Decreto nº 22.914.

Em 2019, a comunidade apresentou ao Iphan o pedido de registro da Festa do Rosário como Patrimônio Cultural do Brasil. Em 2025, o Instituto retomou o acompanhamento técnico do processo e realizou atividades em Pombal para conhecer a celebração e dialogar com a comunidade.

Além do registro da festividade como patrimônio cultural imaterial, a solicitação também engloba o tombamento federal da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e do Cruzeiro localizado em seu adro.

O processo considera elementos materiais e imateriais relacionados à celebração, entre eles a igreja, o cruzeiro, o pátio, o entorno urbano, a Casa do Rosário, acervos documentais, bens móveis, a própria festa e os grupos de cultura popular.

Também em 2025, a Festa de Nossa Senhora do Rosário de Pombal foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado da Paraíba, pela Lei Estadual nº 13.582, de 6 de março.

A Festa do Rosário é patrimônio de um povo. Sua presença está ligada à memória, à cultura e à formação social de Pombal. Esse patrimônio pertence a todos, independentemente de religião, crença, raça ou qualquer outra condição.

Respeitar essa devoção é reconhecer o direito de cada pessoa de seguir sua própria consciência religiosa. Esse direito também pertence a quem segue outra religião ou não professa religião alguma.

Combater a intolerância religiosa é defender a liberdade de todos: de quem acredita, de quem acredita de maneira diferente e de quem não acredita.

José Tavares de Araújo Neto

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