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A Coluna da Hora: O Farol dos Pombalenses

Pouco importa que as quatro faces do relógio da Coluna da Hora, em alguns dias, tenham marcado as horas com exatidão e, em outros, tenham atrasado, adiantado ou permanecido silenciosamente paradas. E, se em algum momento houve alguma pequena falta de sincronia entre as quatro faces, isso jamais diminuiu sua importância. Afinal, ninguém se reunia aos pés da Coluna para conferir a precisão dos seus ponteiros, mas porque ela já havia se tornado um ponto de encontro, uma referência afetiva e um marco da identidade pombalense.

O essencial é que, mesmo quando seus ponteiros deixaram de marcar o tempo, a Coluna jamais abandonou sua verdadeira missão. Continuou marcando o tempo de Pombal. Não o tempo frio e mecânico dos relógios comuns, mas o tempo da vida: o tempo das amizades cultivadas em seus batentes, das esperas inquietas, dos encontros marcados, dos sonhos da juventude, das partidas inevitáveis e das voltas que sempre nos reconduzem às nossas raízes.

Assim como os faróis que se erguem à beira-mar para orientar navegantes entre a escuridão e os perigos, a Coluna da Hora era, e continua sendo, um guia para os pombalenses. Não orienta embarcações, mas cidadãos. É o ponto de referência a partir do qual tantos de nós aprendemos a conhecer a cidade, a escolher um rumo e, sobretudo, a encontrar o caminho de volta. Quantas gerações não marcaram encontros dizendo apenas: “Na Coluna da Hora”?

Não é por acaso que os próprios pombalenses a escolheram como uma das Sete Maravilhas de Pombal. Ela faz lembrar o lendário Farol de Alexandria, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Aquele conduzia navios até um porto seguro; esta conduz filhos de Pombal ao porto da memória. Sua luz nunca dependeu de uma chama acesa no alto da torre, mas do afeto de um povo que transformou um monumento em símbolo de pertencimento.

Foi ali, nos seus batentes, que deixei escorrer boa parte da minha infância e da adolescência. Eu e tantos companheiros da mesma idade passávamos horas jogando conversa fora, imaginando o futuro sem perceber que ele já estava acontecendo. À época, parecia que desperdiçávamos o tempo. Hoje entendo que investíamos naquilo que nenhuma pressa consegue comprar: amizades, pertencimento e memórias.

Ao longo dos anos, por problemas técnicos, houve ocasiões em que seus relógios deixaram de funcionar. Os ponteiros pararam, como se o tempo tivesse resolvido descansar por alguns instantes. Lembro, então, de um conhecido paradoxo popularizado por Lewis Carroll: um relógio parado ainda acerta a hora duas vezes por dia. Talvez porque o tempo dos relógios seja diferente do tempo das lembranças. Os ponteiros podem parar; a memória, não.

Pombal era e ainda é o nosso País das Maravilhas. Não havia coelhos apressados nem rainhas extravagantes. Havia, e continua havendo, algo muito mais valioso: um lugar capaz de transformar uma praça em universo, uma coluna em símbolo e uma conversa despretensiosa em patrimônio da alma.

Durante décadas, os relógios da Coluna marcaram as horas para toda a cidade. Eu, sentado aos seus pés, imaginava que perdia algumas delas. Hoje sei que, enquanto os ponteiros seguiam seu curso, eu acumulava uma riqueza que o tempo não desgasta. O relógio media os minutos; a vida, silenciosamente, construía o homem.

Sempre que volto à velha Coluna da Hora, não reencontro apenas um monumento. Reencontro uma referência afetiva do sertão. Não uma referência para navios, mas para pessoas. Um marco que iluminou gerações de pombalenses e continua indicando, sem palavras, que toda caminhada precisa de um ponto de partida, de um lugar para voltar e de uma história à qual pertencer.

Se, por vezes, seus relógios deixaram de marcar as horas, sua verdadeira missão jamais foi interrompida. Porque há monumentos que registram o tempo. A Coluna da Hora fez, e continua fazendo, muito mais do que isso: ajuda a orientar vidas.

Para muitos de nós, ela continua indicando o caminho de volta para casa, onde uma mãe aflita aguarda o retorno do filho. Aponta também o caminho para tantos pombalenses que um dia partiram em busca de novos horizontes e que, sempre que regressam, procuram instintivamente a velha Coluna, como quem precisa confirmar que suas raízes permanecem intactas.

Às vezes, imagino a Coluna da Hora repetindo, em silêncio, um pensamento de José Américo de Almeida: “No caminho da volta ninguém se perde, porque voltar é uma forma de renascer.” Talvez seja essa a razão de ela continuar de pé, desafiando o tempo. Não apenas para marcar as horas, mas para lembrar a cada filho de Pombal que sempre existe um caminho de volta. E que, ao reencontrar sua terra, reencontra também uma parte de si mesmo.

José Tavares de Araújo Neto

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