Poucas canções conseguem retratar tão bem minha infância quanto “Meu Velho Ipojuca”, composta pelos irmãos Petrúcio Amorim e Romero Amorim e eternizada na voz de Flávio José.
Nascida das lembranças dos compositores, criados no bairro Vassoural, em Caruaru, onde o Rio Ipojuca corta a cidade, a canção tornou-se um retrato de milhares de infâncias nordestinas vividas à beira de um rio.
Desde a primeira vez que a ouvi, senti que aquele rio também corria dentro de mim com o nome de Rio Piancó.
Não foi por acaso.
Vamos aos fatos.
João Neto, eu (José Neto), Jerdy e Jerdivan, os quatro primeiros entre os oito filhos do casal Félix Tavares de Araújo e Gildeth Nóbrega de Araújo, vivemos nossa infância às margens do Rio Piancó.
Nós quatro nascemos e passamos a maior parte da infância na Rua de Baixo, um pequeno bairro de Pombal surgido nas terras da antiga fazenda de nosso trisavô, Benigno Inácio Cardoso.
O bairro é formado pela Rua Benigno Inácio Cardoso, em homenagem à memória de nosso trisavô, e por um prolongamento da Rua Vicente de Paula Leite. Foi numa casa desta última, de número 327, que viemos ao mundo. Passadas tantas décadas, ainda guardo esse número na memória.
Encravada às margens do Rio Piancó, a Rua de Baixo tinha no rio uma extensão natural do seu cotidiano.
Ali vivemos as brincadeiras de menino, os banhos, as pescarias improvisadas e as incontáveis descobertas da infância. Havia também a arriscada passagem pelo local das três pedras, submersas no leito do Rio Piancó. Para nós, era um desafio irresistível; para nossos pais, um permanente motivo de aflição. Aquelas águas eram um convite constante à aventura.
Nossa mãe, extremamente zelosa com suas crias, enxergava o rio com outros olhos.
Bastava o inverno se firmar na cabeceira do Piancó para que seu coração se enchesse de apreensão. As águas barrentas subiam rapidamente, a correnteza ganhava força e ela redobrava a vigilância sobre seus quatro meninos.
Enquanto nós víamos diversão, ela via perigo. Enquanto sonhávamos com mergulhos e travessias, ela imaginava que um descuido poderia terminar em tragédia.
Quando ouço Flávio José cantar “Meu Velho Ipojuca”, tenho a impressão de ouvir também a voz de minha mãe. Enquanto ela nos chamava para longe da correnteza do Piancó, outra mãe fazia o mesmo com seus filhos às margens do Ipojuca.
Os irmãos Amorim escreveram sobre o Ipojuca, mas poderiam muito bem estar cantando o Piancó. Mudam os nomes do rio, da cidade e do bairro. Permanecem a ousadia dos meninos e a aflição silenciosa das mães.
Foi essa canção que me fez compreender o verdadeiro sentido da célebre frase atribuída a Liev Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”
As imagens dos rios são recorrentes na literatura, especialmente na poesia, quase sempre associadas às memórias afetivas, à identidade e ao pertencimento.
Fernando Pessoa eternizou o Tejo como símbolo da paisagem e da identidade de Lisboa. Carlos Drummond de Andrade evocou poeticamente o Rio Doce, presente nas memórias afetivas de sua terra. Cada um, à sua maneira, transformou o rio de sua vivência em um símbolo capaz de emocionar leitores muito além de sua aldeia.
É exatamente isso que torna “Meu Velho Ipojuca” uma canção tão especial. Embora nascida às margens do Ipojuca, ela também passou a correr dentro de mim com o nome de Rio Piancó. E suspeito que o mesmo aconteça com todo aquele que, um dia, teve a infância banhada pelas águas de um rio.
José Tavares de Araújo Neto